NO PÉ DA CHAPADA - (Revista ABCZ nº 24)

Projeto seleciona nelore e guzerá, multiplicando exemplares com uso de tecnologia e genética de ponta

O cenário é deslumbrante, o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, 33 mil hectares de formações rochosas e arenito, além de matas no entorno. Do Mirante Ecológico, a quase 900 metros de altura, se observa com tranqüilidade a planície cercada de mato e de inúmeras fontes, e nascentes. Ali estão também as matrizes nelore paridas, dezenas de bezerros e um núcleo seleto de doadoras. No fundo: o paredão da Chapada, um pedaço meio vermelho do arenito; o restante: um manto verde escuro. Estamos na fazenda Luar, uma propriedade de 7.500 hectares, que está situada a 50 quilometros de Cuiabá (MT).

A fazenda mato-grossense é um dos projetos mais novos de seleção de raças zebuínas daquele estado. O empreendimento, que está sendo construído por etapas, conta com muita tecnologia e uma base genética histórica, a maior parte oriunda de Uberaba, das Organizações Mário Franco. Mas também da Brumado, de Rubico Carvalho, e das seleções de Helder Galera, Cláudio Sabino e Walter Castro Cunha.

Na fazenda Luar concentram-se 800 matrizes em reprodução da raça nelore e cerca de 100 guzerá, cerca de 10% do total de animais envolvidos no projeto. A outra parte está dividida nas fazendas Serrinha, a 50 quilometros da Luar, e Novo Mundo, em Barra dos Bugres, na região de Tangará da Serra, médio Mato Grosso, ambas pertencentes à Pampeana Agropecuária e ao outro proprietário do projeto, o criador Irineu Zagonel. Nessas duas propriedades estão oito mil matrizes em reprodução, sendo três mil nelore LA, quatro mil comerciais, além das puras.

Na somatória total são 10 mil matrizes em reprodução, com uma pecuária de ciclo fechado e uma central de vendas de receptoras prenhas. A central fica localizada na fazenda Serrinha, onde mil hectares de capim tanzânia foram piqueteados em 16 lotes de cerca de 60 hectares.

O lucro da genética

Irineu Zagonel e os sócios da Pampeana Agropecuária, naturais da região de Esteio, Rio Grande do Sul, sede da tradicional Expointer, já montaram também um laboratório na Fazenda Luar. Ali, eles executam os trabalhos de coleta e implantação de embriões, além da aspiração dos ovócitos para fertilização In Vitro – a fertilização de embriões ainda é uma etapa que a propriedade não desenvolve.

A história da Luar é curta, mas recheada de atividades. Desde a compra da base do plantel em Uberaba, negócio realizado com Mário Franco Júnior, passaram-se quatro anos. Nos últimos dois anos, com o rebanho em expansão, participaram do circuito estadual de exposições em Cáceres, Sinop, Tangará da Serra, Mirassol do Oeste, Rondonópolis, Nova Mutum, além de Cuiabá, na tradicional feira de julho, e no final do ranking, em outubro. Obtiveram mais de 10 premiações, incluindo a Reservada Campeã, com a fêmea Olin, terceira melhor matriz do Mato Grosso, e ficaram em oitavo lugar na listagem geral (criador-expositor).

“O tempo foi curto, mas nós entramos com qualidade”, conta Cláudio Pasa, administrador da Luar, há 20 anos no Mato Grosso. “Com seleção genética o negócio funciona e anda rápido. Nós trabalhamos muito com FIV e transferência de embriões, por isso conseguimos dar um salto de qualidade muito rápido”.


Produção de embriões

Em 2004, foram implantados 630 embriões na fazenda Luar. A previsão para 2005 é de mil embriões e mil receptoras prenhas. A produção média, segundo o veterinário João Pereira, paulista de São José do Rio Preto, há oito anos no MT, responsável pela assistência técnica do projeto, é de 100 embriões por semana, um índice alto, bem acima da média estadual. “Tem matrizes que produzem 100 ovócitos numa coleta”, disse Pereira. “Acredito que a produção está ligada ao manejo, ao bem estar das matrizes, que ficam a maior parte do tempo nos piquetes, bem alimentadas. E, também, pelo treinamento da equipe, que foi se ajeitando nos últimos dois anos”, concluiu o veterinário. Cláudio Pasa reforça as palavras do colega de equipe lembrando que “uma vaca deu 16 prenhezes positivas em duas aspirações.”

Pasa também está implantando uma nova experiência com receptoras. Para fugir da tradicional cruzada com sangue europeu, que eles também produzem, na Luar, a maior parte dos embriões foi implantado em matrizes nelore. “Nós escolhemos vacas de boa produção leiteira e em condições de criar um bezerro selecionado sem problemas. É uma experiência, mas consideramos que dará resultados positivos. Nos não queremos montar outra estrutura apenas para criar receptoras cruzadas européias, o que significa trabalhar com outras raças e tornar o projeto mais complexo”, explicou o administrador da Luar.

Seleção e controle

A Fazenda Luar participa de programas de melhoramento genético da raça nelore e também usa o Procan +, da ABCZ. Desde 1998, o trabalho é realizado com balança acoplada ao computador no curral da propriedade. A cada três meses, todo o rebanho é pesado. A seleção segue os padrões tradicionais, por características múltiplas (conformação, musculosidade, precocidade e padrão racial) e os escores visuais. Os bezerros puros, aos 30 dias passam por uma avaliação geral. Os melhores ficam no grupo que receberá tratamento especial, participarão de circuito de exposições e dos leilões de elite a campo. Cerca de 150 animais entre machos e fêmeas, incluindo as doadoras (em torno de 40 matrizes), participam desse grupo.

Do total de machos produzidos anualmente, entre 6 e 7 touros são selecionados para produção de progênie na própria fazenda. Cada reprodutor cobre um lote de 35 vacas nelore LA. A progênie é avaliada posteriormente. A Fazenda Luar já colocou quatro reprodutores em centrais (Sembra e Alta Genética), dois ainda estão em coleta. Um deles o touro Ítalo, é irmão da vaca Itália, uma das melhores matrizes do ranking nacional.

Guzerá em crescimento

Na compra realizada em Uberaba, a empresa adquiriu cerca de 120 animais guzerá, desde novos até eirados. Hoje o plantel passa de 300 cabeças, sendo que dois touros que chegaram ainda bezerros se destacam na cobertura das matrizes. O guzerá é um trabalho em andamento na Luar, que ainda não tem a envergadura do plantel nelore. No entanto, a médio prazo, a proposta da central de receptoras da fazenda é também comercializar animais da raça Brahman, fechando um tripé de zebuínos à disposição do rebanho que mais cresce no país.

Durante a Exposição de Cuiabá, no mês de julho, a Luar venderá os seus melhores animais, na maioria fêmeas. No ano passado, a média do evento foi de R$ 8.000,00 na comercialização de 24 fêmeas. A Luar também participa como convidado de leilões reconhecidos nacionalmente, como o da Morro Vermelho (Camargo Correia) e de José Olavo Borges Mendes (VR-JO). A seleção, os acasalamentos, são definidos pelos administradores e técnicos da própria fazenda, como diz Cláudio Pasa, “estamos aprendendo, o que erramos num ano, corrigimos no seguinte”. A genética comercializada é de ponta na raça nelore, e compreende o sangue de raçadores como o Fajardo, Panagur, Pradesh, Cabaré, Ludy, 1646, entre outros.

“Queremos produzir animais que tenham o perfil da Luar, e que sejam representativos de uma criação nova, mas com uma base genética importante, criada em condições de pastagens e manejo e num ambiente excepcional”, complementa Cláudio Pasa. A Fazenda Luar é dividida em piquetes de 50ha e 100ha, dependendo do grupo de animais, da categoria. Os pastos são de braquiária brizantha (braquiarão), na sua maioria, além de tanzânia, andropógon e rumidícola. Durante a seca, suplementam os animais com silagem de milho, braquiarão, tanzânia e napiê. Mensalmente são abatidos entre 300 e 400 animais, sendo novilhos, vacas de descarte e novilhas refugadas. Anualmente, o abate é de 3.500 machos, todos recriados na Barra dos Bugres.

Porém, o volume de animais entre machos e fêmeas que saem da fazenda todo ano é maior: em torno de 7 mil cabeças. A idade média de abate está entre 28 e 30 meses (a campo). A idade de reprodução do rebanho geral é de 18 a 24 meses; na pecuária seletiva, a reprodução inicia-se aos 14 meses. A fazenda Luar mantém a sua reserva ambiental na encosta da Chapada dos Guimarães, preservada integralmente, nos seus 1.400 hectares.

Revista ABCZ Nº 24 - Janeiro-Fevereiro/2005